28 / 07 / 2021 - 22h24
Mulher caminhoneira: Uma vida na estrada vencendo preconceitos e lutando por realização pessoal

Mulher

As mulheres a cada dia vêm ocupando espaços antes destinados exclusivamente aos homens. Isso é um fato incontestável e já nem causa mais tanta surpresa como quando se falou, por exemplo, da primeira mulher aviadora (Amélia   Hearhart), na década de 30. Ela foi pioneira na aviação dos EUA e defensora dos direitos das mulheres.

Hoje elas se destacam em todas as áreas profissionais e no esporte, desdobrando-se para dar conta de jornadas exaustivas que envolvem ainda casa e família.

Mulher na estrada

Nesta semana em que comemora o Dia do Motorista (25/07), o A3 Portal foi conhecer uma mulher de fibra, super de bem com a vida e com a profissão que abraçou com garra e amor: Mara Cristina Mendonca Bezerra é motorista de caminhão, com codinome QRA Maravilha, da unidade 24, em quase oito anos de profissão, já percorreu estradas do Piauí, Bahia, Maranhão e Tocantis (mas quer percorrer o país inteiro) carregando, descarregando e transportando cargas. Ela é casada com David, também caminhoneiro e QRA Superman, e mãe de duas filhas já adultas.

Ela conta que desde sempre se encantou com os grandes veículos de carga:

“Sempre tive essa vontade, me encantava a cada caminhão que via, cada 1113 Mercedão, cada Scania, ficava me imaginado na direção. Meu pai era caminhoneiro, morreu jovem,e deixou minha mãe com 4 filhas, ela sem nenhuma profissão, teve que aprender a costurar, era a ferramenta que ela tinha em casa, e foi a solução para nos criar”  recorda.

Seguindo o o sonho

Formada em contabilidade, para criar as duas filhas, Tina diz que precisou trabalhar em empregos “normais” como ela mesma classifica e que não chegou a concluir faculdade de contabilidade:

“Tive a mesma oportunidade de estudar, igual as minhas outras irmãs, ainda fiz curso superior de contabilidade, trabalhei na área, mas não terminei o curso, pois já tinha casado, separado, estava com duas filhas e tive que optar em trabalhar no "normal", mas sempre que ia atrás de trabalho, procurava vaga para motorista e não conseguia, trabalhei com vendas de consórcio, de fiscal de conservação, no escritorio fazendo a parte externa, e por ai vai. Mas logo que minhas filhas completaram a maioridade, depois de ter cumprido com minha obrigação, sempre presente em cada situação, resolvi ir atrás, já achando dificuldades por conta da minha idade, falta de experiência, inclusive na carteira; mas com uma vontade louca de ser motorista e com o incentivo delas, minhas filhas e do meu atual marido que não era motorista e, por meu incentivo, mudou de profissão e hoje tem mais experiência na carteira do que eu mesma, por ser homem e mais jovem” afirmou Tina.   

Primeira oportunidade

De tanto insistir no seu sonho, Tina finalmente conseguiu encontrar quem lhe desse uma primeira chance de realizar o seu desejo de se tornar motorista:

“Até que surgiu a primeira experiência, foram 14 dias de trabalho intenso,  mas logo depois surgiu uma oportunidade melhor, ganho melhor e tinha os domingos de folga, e assim se passaram quase 5 anos, trabalhando em caminhão toco, 3x4, fazendo entregas e batendo a carga (ela mesma descarregando), e, depois, passei para outra empresa, com a proposta de ir para carreta, ilusão a minha, foram mais 6 meses e nada” explicou.

Mas apesar do trabalho duro e de algumas decepções, Tina não desistiu e acabou entrando em contato com a Escolinha da Kothe, uma transportadora que ministrava curso para motoristas sem experiência.

“Foi através da escolinha da Kothe que consegui a vaga, e hj estou literalmente realizada, hoje sou motorista carreteira. Não é uma profissão fácil para o motorista, muito menos para uma mulher motorista, são muitos obstáculos, muitos preconceitos”.

Preconceito

Tina explica que apesar de muitos colegas e amizades construídas através do trabalho pelas estradas, existe ainda muito preconceito com mulher carreteira:

“Na grande maioria, não econtramos banheiros para mulher, nos sujeitamos a banhar em banheiro de homem, somos confundidas e interpretadas como ‘raparigas' em pátio de posto, ou mulher de caminhoneiro, pra evitar constrangimento de ser confundida, eu, já ando com o crachá ‘empindurado’, para evitar esse constrangimento e mesmo assim preciso ficar me explicando e isso é muito chato” justificou.

Com bom humor e sempre sorrindo, mesmo narrando as dificuldades enfrentadas em ser mulher caminhoneira, Tina conta que outro aperto nas estradas e nos pontos de parada se deve ao comportamento de alguns colegas de profissão:

“Estamos no caminhão, e, de repente, tem homem ‘mijando’ do lado, ou em qualquer lugar do posto, até na saida do caminhão para o banheiro encontramos esses seres humanos que não têm coragem de ir ao banheiro e ‘mijam’ em qualquer pneu de caminhão. Mas mesmo assim construímos sólidas amizades e vamos lutando para mudar essas coisas” diz entre sorrisos.

Resposta as críticas

Existe admiração pelo fato dela ser mulher e carreteira, mas também o preconceito e as críticas abertas ou veladas por ela ter escolhido essa profissão:

“Somos admiradas por muitos colegas da mesma profissão, porém, se erramos, ou pedimos ajuda, alguns dizem assim: ‘Não sei o que mulher quer fazendo serviço de homem!’, ou ‘uma mulher dessas não serve pra casa e vem queimar a nossa profissão’, como se eles não se acidentassem, como se eles não errasem a rota, como se eles não ficassem no ‘prego’, e alguns deles mesmos não trocam um pneu, muitos nem regular o freio da carreta deles, sabem, mas, por sermos mulher, somos condenadas”, desabafa.

Saúde, saudades e amizades

A vida corrida e cheia de compromissos com horário para entregar a carga, parando apenas para fazer refeições e dormir, dificulta a prática de atividades físicas e alimentação saudável já que é mais difícil encontrar uma comida caseira:

“Como não encontramos sempre uma comida caseira, feita na hora, encontramos mais comidas requentadas, salgados, muita coisa industrializada, também tenho esse cuidado e sou persistente, onde quer que eu esteja, estou sempre me esforçando para me alimentar bem e me manter saudável. Sou muito feliz, mas  tem dias, que a suadade aperta, eu choro, fico olhando fotos, faço chamada de video, ligo meu forrozinho bem alto, danço na boleia do caminhão e logo passa esse aperto.  Vão cheganfo os colegas, vamos procurando conversar, até a gente descontrair. Fazemos amizades e assim o tempo passa”.

Articulação do Grupo “GEB”

Em um período em que ficou desempregada, Tina resolveu criar um grupo em um aplicativo para manter contato com os amigos de profissão:

“Durante quase um ano sem trabalho, tive a ideia de criar o grupo de caminhoneiros, me sentir caminhoneira, de ajudar, e assim criamos o GEB - Grupo Estradeiros do Brasil, junto com o meu marido. Unimos os colegas caminhoneiros, e após um ano de criação, com todas as dificuldades e pandemia, conseguimos incentivar a categoria a se cuidar, a trabalhar com mais amor, tolerância. Hoje é mais comum ver alguns colegas fazendo uma caminhada, já fazem.sua própria comida no caminhão, fazemos ações solidárias ao colegas do grupo que precisam, passamos informações através de lives, procuramos parcerias com empresas para fidelizar e nos proporcionar descontos e, em contra-partida, divulgamos a marca dele. Apesar de não ser fácil, a palavra deisistir não existe no meu dicionário!”

(Fotos: Arquivo pessoal) 



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